VLME, TERRA DE PINÉUS E NOBRES ÁGUAS
Ulme, tem sido considerada uma das povoações mais antigas do atual concelho da Chamusca. O relato de muitos achados arqueológicos, de diferentes épocas, alguns à guarda da paróquia e expostos em núcleo museulógico da atual igreja de Santa Maria, são disso testemunho. O registo mais antigo da sua existência é do séc. XIV, referindo-se a doação da Quinta de Ulme da Ordem de S. João do Hospital de Jerusalém, hoje Ordem de Malta, ao cavaleiro e cruzado Gil Navalha com sua esposa, Maria Esteves.
Em 1343, Gil Navalha vende a Quinta a D. Afonso IV. Mais tarde por decisão de D.João I, concretizou-se a primeira real doação dos lugares de Ulme e da Chamusca, a um seu vassalo e cavaleiro, Afonso Vasques Correia em 1386. Este cavaleiro era natural de Abrantes, tendo sido feito nobre, nomeado escudeiro e alcaide-mor de Abrantes por destaque em combate na Batalha de Aljubarrota e ainda, claro defensor da causa do Mestre de Avis, D.João I.

Primeiro brasão de armas dos Silvas
Em 1449, os Silvas, dão os primeiros passos para a sua invenção: o futuro concelho da Chamusca.
D. Afonso V atribuiu-lhes a Carta de Doação do Lugar d’Vlme, a contrário do que seria espectável, os Silvas, não se instalaram no lugar de Ulme, mas sim no lugar da Chamusca que se encontrava nos seus limites, gozando de amenidade e contemplação, e cujos campos resplandeciam de fertilidade. A Chamusca seria o lugar de residência da família, merecendo Ulme os seus afazeres na Irmandade das Almas do Purgatório, e onde se podia encontrar a única igreja que servia os dois lugares, a primitiva igreja de Santa Maria.
Ruy Gomes da Silva, bisavô de Ruy Gomes da Silva, foi o primeiro donatário do lugar de Ulme, seus limites e do lugar da Chamusca.
O segundo donatário foi seu filho, João da Silva, a quem se deve o progresso da Chamusca pois, em apenas três décadas, de 1487 a 1517, conseguiu transformar um pequeno lugar, num Lugar com cerca de cem fogos elevando-o ao estatuto de freguesia.
Arredores de Ulme
Francisco da Silva foi o terceiro donatário, entre 1520 e 1566, a ele se devem as primeiras tentativas de elevação a vilas e concelhos dos lugares da Chamusca e de Ulme. Nos censos de 1527, a aldeia da Chamusca registava 156 fogos e 702 habitantes e a de Ulme possuía 139 fogos e 625 habitantes, havia ainda um outro lugar, que hoje é um casal de lavoura, chama-se Crêspo e dele pouco se sabe, mas fica o registo de 31 fogos e 139 habitantes. Pelo número de fogos e habitantes verifica-se que a Chamusca tinha progredido mais, ultrapassando a povoação de Ulme que até era a mais antiga. Francisco da Silva intentou algumas medidas para valorizar a aldeia de Ulme, sendo seu feito, a expansão territorial da freguesia para o interior da charneca e campo da Trava.
A cultura do arroz
Embora a cultura do arroz já fosse prática no vale da Ribeira de Ulme desde o inicio do séc.XVI , foi com Francisco da Silva que a mesma se expandiu. Na época a introdução da cultura do milho, para além do trigo, cevada e centeio já existentes, veio revolucionar a atividade dos moinhos de água ou de rodízio, dos quais já havia notícia no séc.XIV, multiplicando-se desde o casal do Carregal até ao casal do Semideiro, por consequência também os fornos de pão tiveram o seu incremento.
1561: A Invenção dos Silvas
De início integrado no termo de Santarém, Ulme, foi em 1561, elevado a vila e a sede de concelho, juntamente com a Chamusca, por alvará concedido a estes lugares.
Francisco da Silva, terceiro donatário das duas terras protagonizou a primeira tentativa de autonomia. No entanto, o processo não foi rápido nem pacífico devido à resistência de Santarém, só com o forte empenhamento e influência do seu filho, Ruy Gomes da Silva, durante a regência de D. Catarina, avó de D. Sebastião, foi possível à Chamusca e a Ulme nascerem gémeas de vilas e concelhos, a 18 de fevereiro de 1561.
Ruy Gomes da Silva
Em 2016, faz 500 Anos que nasceu na Chamusca, em 27 de outubro de 1516, Ruy Gomes da Silva, 4º Donatário da Chamusca e de Ulme, Duque de Pastrana ( Espanha) e Príncipe de Éboli ( Itália ).
De meados do século XV até à Restauração, a vila pertenceu à Casa dos Silvas. A partir de 1643, passou a integrar o património da Casa das Senhoras Rainhas, tendo-se mantido nesta situação até início do século XIX.
Ulme, foi vila e sede de concelho até 24 de Outubro de 1855, sendo então integrada no concelho da Chamusca. Em 1561 foi constituído pela freguesia de Ulme. Após as reformas administrativas do início do liberalismo, foram-lhe anexadas em 1830 a freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Chouto, em 1833 a freguesia do Divino Espírito Santo de Vale de Cavalos, ambas sem as terras da Coutada Real, o que só veio a acontecer com a conservação das freguesias em 1836 e ainda a freguesia de Bemposta, (entre 1836 e 1844), atualmente pertença do concelho de Abrantes.
A extinção do concelho de Ulme, em 1855, e a consequente anexação ao concelho da Chamusca, constituem a última etapa de um processo de prolongada decadência no seu desenvolvimento. As epidemias que proliferaram no início do século XIX, como o paludismo, devido à cultura intensiva do arroz, deram contributo decisivo para o declínio de Ulme. Por outro lado, a partir do séc.XVIII, a economia florescia na vila da Chamusca devido a três condições que Ulme não possuía: ter sido desde sempre residência dos donatários, usufruir diretamente dos campos da Trava e ter acesso à importante via fluvial do Tejo.
A vila de Ulme, como ainda hoje é comum se designar, pese embora já não o seja pois, perdeu formalmente o título aquando da extinção do concelho, é atualmente uma povoação pequena, mas ostenta orgulhosamente no brasão de armas da Freguesia as quatro torres correspondentes ao estatuto de Vila.

A povoação encontra-se limitada, do ponto de vista urbanístico, entre a várzea da Ribeira de Ulme e as íngremes encostas de argila. Conserva no seu interior alguns apontamentos e memórias da sua história e do seu passado, menires, estelas funerárias, o fontanário do Paço da Rainha e a Casa da Forca, edifício sede da extinta Câmara Municipal, tribunal e prisão. Os seus habitantes mantêm forte agregação à Igreja Católica e apelidam-se orgulhosamente de Pinéus; antigo jogo infantil que consistia em atirar uma pedra ao ar, dizendo: «pinéu, pinéu, que vais para o céu, torna a cair, e guarda a cabeça de quem ela ferir”.
Textos: Francisco Matias; Fotos: da Web para fins não comerciais e Francisco Matias; Composição Digital: Francisco Matias
Bibliografia:“O Concelho da Chamusca”, por Manuel José Cid Carvão Guimarães
“Ulme, uma vila,a história e as suas tradições, por Jaime Marques
“Por Terras da Chamusca, em breve e esquemático elucidário do seu passado”, por Luís António Vaz Tecedeiro
“História da Chamusca”, por João José Samouco da Fonseca
“Vila de Rei com Vale de Cavalos, A Charneca”, por Alice Lázaro
Semideiro, Terra de Memórias Vivas


No início do povoamento dos futuros concelhos da Chamusca e Ulme, eram estas terras cruzadas por importantes vias construídas pelos Romanos e mais tarde tomadas por Donatários e Rainhas.
Vislumbra-se na crónica de D. João I, por Fernão Lopes, registo de um importante conflito, designado nessa obra por Emboscada do Semideiro. D. Nunes Alvares Pereira soube que um grupo de Castelhanos se disponha a deixar Santarém com volumosas pilhagens. Perto da Ribeira de Ulme no Semideiro, junto a Tamazim, os Portugueses mataram muitos inimigos e os bens foram assim recuperados, estávamos no ano de 1384.
Emboscada do Semideiro ou o Conflito de Tamazim
Este acontecimento e esta vitória sobre os Castelhanos, para além de registada em livro, nunca se apagou da memória local. Assim na preparação da revolta do 1º de Dezembro de 1640, restaurando a independência de Portugal face a Castela, as gentes destas terras juraram construir a capela de Tamazim, em comemoração das vitórias sobre os Castelhanos, a revolta da restauração em 1640 e a emboscada do Semideiro pelo Mestre de Avis, o Condestável, em 1384. Por isso, em 1641 foi construída a singela capela, pertinho do Semideiro, localidade da actual freguesia de Ulme, num casal chamado de Tamazim. O qual fica para lá do risco, já no concelho de Abrantes, alguns metros, coisa pouca, que só quem sabe é que nota. Hoje, ainda acontece em Tamazim uma procissão e missa invocando Nossa Senhora da Luz, associada a festejos popularmente chamados da Lagartixa.
Procissão de Nossa Senhora da Luz
Em 1561, o lugar de Ulme foi elevado a vila e a sede de concelho, juntamente com a Chamusca.
Deste período não conhecemos referências ao Semideiro, no séc. XVII existem referências a Tamazim (concelho de Abrantes) e ao vizinho Semideiro como casais de lavoura, Tamazim que no império Romano se designava por Aritium Praetorium, seria um entreposto de apoio aos viajantes nas estradas romanas que ali se cruzavam, o Semideiro permaneceu, durante séculos, na Coutada Real os solos só eram passíveis de uso agrícola e florestal após arroteamentos, os quais, a partir da extinção das Coutadas Reais em 1821, se intensificaram após aforamentos, permitindo assim, o povoamento progressivo do território num esforço acrescido e individual de cada lavrador ou rendeiro. Numa escala pequena, assim sucedeu no Semideiro, que em 1877, já como aldeia da freguesia de Ulme e concelho da Chamusca, possuía 29 habitantes e nove fogos, destes habitantes há referencias sobre a atividade que exerciam: Jornaleiros, Moleiro e Taberneiro. É no séc. XX que a aldeia se desenvolve progressivamente.
Vale da Ribeira de Ulme
O seu povo, consciente, do isolamento e da distância a que estavam das localidades mais povoadas sempre tomou iniciativa na criação de riqueza a partir do melhor que a terra dava; fosse nas pequenas hortas da ribeira, ou mais tarde no cultivo do arroz, ou ainda coletando na mata cogumelos silvestres e pinhas, trabalhando a floresta de pinho, do montado de sobro e mais recentemente, na segunda metade do século XX, na plantação e corte do eucalipto para a industria do papel.
Textos: Francisco Matias; Fotos: da Web para fins não comerciais e Francisco Matias; Composição Digital: Francisco Matias
Bibliografia:“O Concelho da Chamusca”, por Manuel José Cid Carvão Guimarães
“Por Terras da Chamusca, em breve e esquemático elucidário do seu passado”, por Luís António Vaz Tecedeiro
“História da Chamusca”, por João José Samouco da Fonseca
“Vila de Rei com Vale de Cavalos, A Charneca”, por Alice Lázaro

